O demônio do meio-dia: Uma anatomia da depressão. Andrew Solomon

“A depressão é a imperfeição no amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição.” (Andrew Solomon).

Assim se inicia o livro fundamental para se compreender o fenômeno da depressão. Andrew Solomon revela quão trágica é a vida sob esta doença mental. É capaz das abordagens mais viscerais sobre o mal, ao qual ele o compreende com clareza, pois o vivenciou em três períodos sob expressivos colapsos nervosos. Seu livro, dotado de uma escrita densa e elegante, é um legado contra o preconceito sobre essa doença que mata.

Francesco Clemente, Sem Título, 1968

“Embora não seja nenhum profilático contra a depressão, o amor é o que acolchoa a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado, e é por isso que funcionam.” (AS).

Jornalista e escritor, Solomon já publicara um romance e uma dissertação sobre artistas soviéticos durante a glasnost. Escreve para páginas de cultura da imprensa norte-americana de referência.

Seu estudo é fundamentado por diversas pesquisas científicas, por uma busca apaixonada e corajosa para averiguar a doença – o livro demorou quatro anos para ser escrito – e, sobretudo, com uma apropriada narrativa que une poesia e fatos, verdade e dor.

Quando estão bem, alguns amam a si mesmos, alguns amam outros, alguns amam o trabalho e alguns amam Deus: qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito que é o oposto da depressão.” (AS).

Estar em depressão é sentir-se pesado de emoções insolúveis. Tudo gira em torno da inviabilidade e da insensatez. Há vezes em que o mal domina o coração e exala uma tristeza acre. Outras, não há tristeza alguma, mas um vazio que paralisa.

Acostumamos a pensar por vezes, que só há uma solução. Aquela que seja definitiva. Mas se pensa em cada um que nos é caro e nos traumas que seriam acarretados. Em alguns momentos a lucidez se ausenta e precisamos urgente de pessoas que nos acreditam sermos amados.

Queremos uma vida normal, sem aquela sensação turva impregnada à alma. Mas não há serotonina em quantidade o suficiente para flutuar no cérebro. E precisamos de remédio para repor essa substância. Por isso tudo é envolvido de distanciamento. E nos acostumamos a não olhar para frente, pois há um temor generalizado e desconexo. O olhar é orientado para baixo, para a terra, como que esta visão curta e breve mitigasse o futuro próximo.

“O amor nos abandona de tempos em tempos, e nós abandonamos o amor. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida se tornam evidentes. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância.” (AS).

Fonte: http://voosubterraneo.blogspot.com/2006/05/andrew-solomon-o-demnio-do-meio-dia.html

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O demônio do meio-dia.

O “demônio do meio-dia” foi uma expressão utilizada na idade média tida como uma influência maléfica que provocava os erros no escritor, escultor etc… Podemos considerar o “demônio do meio-dia” como a própria melancolia, ou seja, a perda do sentido da existência; falta de explicação por uma grande perda.

Na gravura de Dürer, Melancolia, a procura de compreensão está repleta de perturbação, de dúvidas reais criadas pelas ideias da Reforma e da Renascença.
O olhar absorto e concentrado na distância e, simultaneamente, na meditação, no olhar para dentro. No entanto, em Dürer há agitação intelectual, procura de conhecimento, de compreensão das contradições do mundo. A mão esquerda apoiando o queixo está ligado ao demônio, ao mal, entretanto nas pinturas a forma melancolica é a mão-direita segurando a cabeça.
O cão negro simboliza o diabo, que tem como objetivo atormentar.

Para Aristoteles, a melancolia vai ser vista como caracteristicas dos intelectuais, pois, os melancolicos são propensos à criatividade. Imaginação vai ter um objetivo de furor divino, onde a memória constitui a alma. O sábio não pode se refugiar na loucura, porém pode ser possuído por estranhas imagens. A imaginação é um meio demoniaco, as imagens conservadas na memória suscitam à imaginação. Mas o individuo fascinado por essas imagines desorganizadas, cria novas imagens, logo, a imaginção leva ao pecado, ao erro e à ilusão.

O demônio do meio dia faz com que o dia pareça lento ou imóvel. O demônio faz com que a pessoa possua um só pensamento.
Melancolia está ligado ao planeta saturno – satã
- tradição grega: Saturno – melancolia
- tradição oriental: satã – Acédia¹
Gregos: Khronos(Deus do tempo) encarna o soberano da idade de ouro. Khronos devora seus filhos, ou, as horas.
Latinos: Saturno possui a foice, com a qual cortou o pênis de seu pai; para fundar a geração dos titãs. Ele preside os trabalhos nos campos
Saturno: Planeta mais longe e de revolução mais lenta; representante do sol durante a noite. É a encarnação da inteligência suprema.
Para a astrologia Saturno é nefasto. Desde o 1º século a.c. por que ele passou uma temporada no Hades, representa a parte mais baixa do Universo, e a influência mais hostil.
Os nascidos sob Saturno têm o corpo deformado; cabelos negros, queixo coberto de pêlos, ar sombrio; peito estreito, tristes, com roupas sujas, não gostam de passear com as mulheres, ou com companhia.
A hora de Saturno é a hora do Mal

Anatomia da melancolia: 4 humores: Sangue, Linfa, Bile Amarela, Bile negra
Para melhor compreensão, segue um quadro:

  1. Sangue – sangüíneo – ar – quente/úmido – Júpiter – Primavera
  2. Linfa – fleumático – água – fria/úmida – Vênus – Inverno
  3. Bile Amarela – Colérico – fogo – quente/seco – Marte – Verão
  4. Bile Negra – Melancólico – terra -fria/seca – Saturno – Outono

A melancolia elizabetana
Melancolia na era elizabetana significa uma cruel fatalidade. “guardar fielmente a palavra dada chama a miséria. Arranja-te com os deuses e a sorte”. Melancolia é a tensão entre a terra e as estrelas.

Melancolica saturniana: Mercúrio o deus de pés alados é o deus dos artistas, agora Saturno. Traços: Excentricidade, gosto pela solidão.

A loucura melancólica é uma alienação da imaginação, não do espirito. A doença melancólica alterna 2 fases: a maníaca e a depressiva, segundo os tratados de medicina.
Os escritores: Hamlet – combate sua melancolia com a ironia.
Moliére: para ele, a melancolia é uma figura dolorosa
Para Boileau, a melancolia é a falta de gosto, e por fim, para Montesquieu que via no ar, nas uvas e no vinho excelentes antídotos contra a melancolia.


No quadro “Sweet Melancoly“, de Joseph-Marie Vien a melancolia é representada como uma jovem mulher, magra e abatida, assentada, onde as costas estão em oposição ao dia, apoia a cabeça na mão direita; e na esquerda segura uma flor, a qual não presta atenção. Seus olhos são fixos na terra. A doce melancolia que se apresenta cheia de graça.

O romantismo: o último lugar melancólico
Valorizando o indivíduo sensível à margem da sociedade, preferindo os recusros do imaginário àqueles da razão, reconhecendo no fantástico um meio de expressão original a acédia reaparece na figura de Satanás ou na visão de um erotismo exacerbado, na atenção aos pesadelos e a exaltação da loucura. Surge o abatimento de alma e corpo, aborrecimento e impaciência alternados, sentimento de enfemeridade que suscita desejo de fuga, imaginação vencida como obra do Demônio. Em vez de contemplação surgem visões e pesadelos, fadiga, incerteza, ausência de força. A beleza designa um ideal inacessível e desde modo, desesperador.

Caspar David Friedrich, ligado aos escritores Kleist, Tieck, ao poeta Novalis, é o pintor maior do romantismo alemão
Suas imensas paisagens mostram o lugar de uma revelação inalcançável.
E existência é pobre, seca e desencantada. “O tempo é a substância da Melancolia”, diz Hegel. A tristeza no meio da grandeza. A impossibilidade de contentamento significando “a aprovação que o indivíduo se dá a si mesmo”. A melancolia significa um além temporal.

A beleza livre e perfeita não pode se contentar deste acordo com uma existência determinada e finita, a melancolia ligada a uma aspiração espiritual se encontra em Baudelaire: “quando um poema arranca a lágrima dos olhos, estas lágrimas não são prova de excesso de alegria, elas são o testemunho de melancolia irritada; de nervosismo, de uma natureza exilada no imperfeito e que gostaria de chegar ao paraíso revelado”

Melancolia e criação artística:
Concentração e lassidão – as duas faces da criação artística, nas fotos de Baudelaire, Schumann, Rimbaud, Nerval…
“o eterno verão não torna a vida plena de alegria”
“Sou como rei de um país chuvoso: Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso.”
(trechos do livro, “As flores do mal”, de Baudelaire)

Melancolia na modernidade: Ela resulta da perda de transcendência; assimila desordenadamente a errância do indivíduo na imanência. Ela vem ao espírito do homem no momento onde o imediatismo reclama uma forma de vida superior e quer se apreender com o espírito, o homem, como ser imediatista, entra a trama da vida terrestre, procura de se desgarrar da dispersão, a se concentrar e a encontrar em si mesmo sua explicação, quer tornar-se consciente de si mesmo.

¹A acédia – também conhecida como “o demônio do meio-dia” – está intimamente relacionada com a tristeza e se manifesta igualmente sob dois aspectos: ora faz o entediado ceder ao sono, ora o instiga a abandonar a cela e a fugir.

Fonte: http://cafecomlatim.blogspot.com/2008/05/o-demnio-do-meio-dia.html

Trechos do livro O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon

Trecho 1 – página 60

Geralmente são os eventos da vida que desencadeiam a depressão. ‘Um indivíduo está muito menos propenso a sofrer depressão numa situação estável do que numa instável’, diz Melvin McGuinness, da Universidade Johns Hopkins. George Brown, da Universidade de Londres, é o fundador das pesquisas sobre ‘eventos da vida’ e diz: ‘Acreditamos que a maioria das depressões é anti-social na sua origem; existe também uma doença depressão, mas a maioria das pessoas é capaz de criar uma depressão grave a partir de um determinado conjunto de circunstâncias. O nível de vulnerabilidade varia, é claro, mas acho que pelo menos dois terços da população têm um nível suficiente de vulnerabilidade.’ Segundo sua exaustiva pesquisa realizada durante mais de 25 anos, eventos que ameaçam gravemente a vida são responsáveis pelo desencadeamento inicial da depressão. Tais eventos envolvem tipicamente alguma perda – de uma pessoa querida, de uma função, de uma idéia sobre si mesmo – e se apresentam da pior forma quando envolvem humilhação ou uma sensação de estar preso numa armadilha. A depressão pode também ser causada por uma mudança positiva. O nascimento de um bebê, uma promoção ou um casamento podem desencadear uma depressão quase tão facilmente quanto uma morte ou perda.

Trechos do livro O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon

Trecho 2 – página 123

‘Na depressão, você não pensa que pôs um véu cinzento e está vendo o mundo através da névoa de um estado de espírito ruim. Você pensa que o véu foi retirado, o véu da felicidade, e que agora está realmente enxergando. Você tenta se agarrar à verdade e destrinchá-la, e acredita que a verdade é a única coisa fixa, mas ela é viva e corre de cá para lá. Você pode exorcizar os demonios dos esquizofrênicos que percebem que há algo estranho dentro deles. Mas é muito mais difícil com gente deprimida, porque nós acreditamos estar vendo a verdade. Mas a verdade mente. Olho para mim mesma e penso,’Sou divorciada!’, e isso parece terrível. Embora eu pudesse pensar ‘Sou divorciada!’ e me sentir ótima e livre. Apenas um comentário foi realmente útil durante este pesadelo. Uma amiga disse: ‘Não vai ser sempre assim. Veja se consegue lembrar disso. É assim neste momento, mas não vai ser sempre assim.’ A outra frase que disse e que também ajudou foi: ‘Isso é a depressão falando. Ela está falando através de você.”

Trecho 3 – página 376

As pessoas neste livro são na maioria fortes ou inteligentes ou resistentes ou se destacam de algum modo. Não acredito que haja uma pessoa média, ou que ao contar uma realidade prototípica se possa transmitir uma verdade abrangente. A busca pelo ser humano não-individual, genérico, é a praga dos livros populares de psicologia. Ao ver quantos tipos de resistência, força e imaginação podem ser encontrados, aprecia-se não apenas o horror da depressão, mas também a complexidade da vitalidade humana. Tive uma conversa com um idoso gravemente deprimido que me disse que ‘os deprimidos não têm histórias, não temos nada a dizer’. Todos temos histórias, e os verdadeiros sobreviventes tem histórias interessantes. Na vida real, o ânimo tem que existir em meio à confusão dos brindes, bombas atômicas e campos de trigo.

Trecho 4 – Página 389

O oposto da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade, e minha vida, enquanto escrevo isto, é vital, mesmo quando triste. Posse acordar de novo sem minha mente em algum dia do próximo ano: provavelmente ela não ficará por aí o tempo todo. Enquanto isso, porém, descobri o que tenho que chamar de alma, uma parte de mim que eu jamais teria imaginado até o dia, sete anos atrás, em que o inferno veio me visitar de surpresa. É uma descoberta preciosa. Quase todo dia sinto de relance a deses perança, e cada vez que acontece me pergunto se estarei me desestabilizando de novo. Por um instante petrificador aqui e ali, um rápido relâmpago, quero que um carro me atropele e tenho que cerrar os dentes para continuar na calçada até o sinal abrir; ou imagino como seria fácil cortar os pulsos; ou experimento famintamente o metal do cano de uma arma na boca; ou fantasio dormir e jamais acordar de novo. Detesto essas sensações, mas sei que elas me impeliram a olhar a vida de modo mais profundo, a descobrir e agarrar razões para viver. A cada dia, às vezes combativamente e às vezes contra a razão do momento, eu escolho ficar vivo. Isso não é uma rara alegria?

O Demônio do Meio-Dia

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Publicado na Thursday, 03 April 2008

edmunch1.jpg“A cidade enlouquece
os sonhos tortos
Na verdade nada
é o que parece ser
As pessoas enlouquecem calmamente
Viciosamente, sem prazer..”

Há muitos anos atrás, eu estava em uma reunião de mulheres na Vila dos Milagres, comunidade muito pobre e violenta, no Recife, já vinha percebendo alguns comportamento difíceis em algumas pessoas, aí fui puxando o papo e, pra minha surpresa, fiquei sabendo que quase todas as mulheres do grupo já tinham passado temporadas em instituições psiquiátricas.

Quando perguntei porque elas achavam que isso tinha acontecido, Socorro, uma mulher inteligentíssima, grande liderança – e que também já tinha sido internada – me deu uma resposta que eu nunca vou esquecer.

Ela disse: “É a fome, Denise, você sabe o que é ver seu filho chorando, gritando de dor na barriga de fome e você não poder fazer nada? não ter nada pra dar pra ele? isso deixa qualquer mulher morrendo de tristeza…”.

Naquela época internava-se as pessoas nesses “depósitos de pessoas que pensam e agem diferente” com a maior facilidade. Fico imaginando quantos desses casos não eram depressão, que é uma doença, sim, mas longe de ser considerada caso de internamento

Hoje, o estigma da depressão parece estar diminuindo, existem diversas formas de tratamento mas a depressão continua marginalizando e causando enormes danos à vida de milhões de pessoas.


“A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não”

A depressão não escolhe ninguém pela classe social, etnia, gênero ou idade. Nem é preciso estar vivendo numa situação extrema como a miséria dessas mulheres ou a perda de uma pessoa amada para adoecer.

edmunch2.jpgConfesso que gosto de poder escolher entre a pílula azul ou vermelha e resolver logo a dor. Por isso, morro de medo das “doenças da alma”, para as quais a solução é sempre mais demorada e complexa.

Comprei o O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Salomon porque queria entender o que é a depressão e me preparar pra não me deixar cair nela.

É um ótimo livro, não só pela utilidade na busca da compreensão dessa doença, mas porque ele consegue escrever sobre algo tão árido, de uma forma muito poética.

Sobre a depressão, Solomon começa afirmando que: “Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo mesmo. Embora não seja nenhum profilático contra a depressão, o amor é o que alcochoa a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado e é por isso que funcionam.”


“As cortinas transparentes não revelam
O que é solitude, o que é solidão
Um desejo violento bate sem querer
Pânico, vertigem, obsessão”

Ninguém deve ter vergonha de estar doente e a depressão é uma doença, que precisa ser tratada. O preconceito em relação à depressão – e principalmente em relação ao uso dos medicamentos – é ainda mais doloroso e só faz retardar a possibilidade de melhora. Se tem de tomar remédio, que se tome sem vergonha, nem culpa. Como se toma um medicamento pra baixar a pressão. Acho um crime sugerir que um chazinho de camomila ou “uma lavagem de roupa”, como disse a Sue nos comentários, vai resolver…

Resolvi escrever sobre isso porque alguém me pediu.

edmunch3.jpgUma pessoa, que visita sempre o blog, me escreveu um email emocionante falando sobre sua mãe, portadora de transtorno bipolar, com crises terríveis de depressão e me falou das diversas vezes que presenciou o sofrimento da sua mãe e a incompreensão das outras pessoas.

Ela acredita que, ao compartilharmos experiências e refletirmos sobre o assunto, estaremos ajudando outras pessoas a entender melhor o que é a depressão. Não é a mesma coisa que tristeza. Todos nós temos as nossas desventuras, momentos de desespero, mas isso não é, necessariamente, depressão.


“A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite, não”

A depressão pode ser suave e ir se instalando aos poucos, gradualmente, minando “as pessoas como a ferrugem enfraquece o ferro”, como diz Solomon, que continua: “tal depressão toma posse do corpo nas pálpebras e músuclos que mantém a coluna ereta. Fere o coração e o pulmão, tornando a contração dos músculos involuntários mais dura do que precisa ser”.

Ainda segundo ele, “a grande depressão é a matéria dos colapsos nervosos. Se imaginarmos uma alma de ferro que se desgasta de dor e enferruja com a depressão suave, então a depressão grave é o assustador colapso de toda uma estrutura”.

Eu sei que, em alguns casos, não tem nada que impeça que a depressão se instale, mas acredito que, para muitas pessoas, é possível lutar contra ela. Não sou uma pessoa com tendências à depressão, mas ainda assim, sempre que sinto que estou sendo “derrubada”, luto pra segurar a minha onda. Não me entrego. Ouço algo mais animadinho (nunca Elis Regina!); vou fazer uma bela caminhada, fotografar a cidade, ler um belo livro, tomar um sorvete e, principalmente, espanto os pensamentos que me afligem.


“Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino
Toda noite uma imagem diferente
Consciente, inconsciente, desatino”

edmunch5.jpgNão é fácil definir a origem da depressão, aparentemente, algumas pessoas estariam mais vulneráveis, quimicamente, a sofrer desse mal, mas ainda existe muito a se aprender sobre isso. Uma coisa é certa, poucas pessoas conseguem sair sozinhas da depressão. Todas precisam de ajuda de psicoterapeuta e muitas vezes de medicamentos, além, claro de muito amor e compreensão dos que estão ao seu redor.

Para superar a depressão, Andrew Salomon sugere,também que você “ouça as pessoas que amam você. Acredite que vale a pena viver por elas, mesmo que você não acredite nisso. Busque as lembranças que a depressão afasta e as projete no futuro. Seja corajoso, seja forte, tome suas pílulas. Exercite-se que isso lhe fará bem, mesmo que cada passo pese uma tonelada. Coma, mesmo quando sente repugnância pela comida. Seja razoável consigo mesmo quando você tiver perdido a razão. Esse tipo de conselhos são lugares-comuns e soam bobos, mas o caminho mais certo para sair da depressão é não gostar dela e não se acostumar com ela.”

Salomon conclui que “O oposto da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade, e minha vida, enquanto escrevo isto, é vital, mesmo quando triste (…) A cada dia, às vezes combativamente e às vezes contra a razão do momento, eu escolho ficar vivo.”

Leia mais:

Trechos do livro O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon.

Mulheres maravilhosas, vítimas do Demônio do Meio-Dia.

clarice lispector

“Peço perdão por não ser uma “estrela” ou o “mar”
Ou não ser alegre, mas coisa que se dá.
Peço perdão por não saber me dar nem a mim mesma.
Para me dar desse modo eu perderia minha vida se fosse preciso!”
Clarice Lispector, escritora brasileira, (1920-1977)

sylvia Plath

“Eu não conseguia reagir. Sentia-me muito quieta e muito vazia, como o olho de um furacão deve se sentir, movendo-me inane em meio à algazarra em torno” Sylvia Plath, escritora americana (1932–1963)

virginia woolf

“Ah, está começando, está vindo – o horror – fisicamente, como uma onda dolorosa, inchando sobre o coração – atirando-me para cima. Estou infeliz, infeliz!” Virginia Wolf, escritora inglesa (1882–1941)

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Uma das explicações para a origem do termo Demônio do Meio-Dia, nesse contexto, vem de teólogos medievais, para os quais esse era o primeiro fundamento da tristeza, desânimo, depressão. Também conhecido como acídia. (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito da história, 1940)

Música: “Essa Noite, Não” de Lobão, Bernardo Vilhena, Ivo Meirelles e Daniele Daumérie. Com Lobão.

Imagens: Todas de Edvard Munch, artista norueguês. (1) Madonna, 1895; (2) Auto retrato com cigarro queimando (1895); (3)Charlotte Corday, 1930 e (4) Candle.

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ATENÇÃO

Alguém no Orkut me pediu pra escrever sobre depressão. Lembrei que fiz esse post em 2005 e achei que seria bom re-editá-lo. Vai como está, sem revisão. AMO essa música de Lobão e ela ilustra muito bem o post, clique no letra em azul para ouvir enquanto lê ou veja o vídeo aqui.